
Graça e paz! Dois anos se passaram do terrível episódio da boate Kiss, em Santa Maria (RS). Lembro-me como se fosse hoje. E como poderíamos esquecer? Domingo de manhã saí para oficiar culto. Na volta, pelas rádios o assunto era um só: incêndio e mortes. Já em casa, tive a confirmação que meus tios haviam perdido a filha Bruna, minha prima e afilhada. No culto da noite, parecia que todas as pessoas estavam em clima de luto. Ninguém conseguia entender bem o acontecido. As orações sempre de novo lembravam os corações sofridos na região de Santa Maria. E isto se repetiu por longas semanas, em muitas denominações religiosas e religiões. No domingo de noite, fui para Agudo e, na segunda-feira, bem cedo, enterramos a Bruna, seu namorado, o irmão dele e o melhor amigo deles. Eram quatro de 242 mortos. Durante o velório lembro-me de uma frase dita por meu tio: “Eu não sabia onde minha filha ia, mas imaginava que ela estivesse segura.”
Dois anos depois, os 680 feridos certamente carregam no corpo e no coração a lembrança daquele dia. Todos carregam sequelas, tanto no corpo quanto na alma. As famílias enlutadas carregam no coração a saudade e as lembranças. Particularmente, carrego comigo meus sentimentos bem guardados, para nunca mais esquecer aquele dia. Nesta semana, ao lembrar este fato trágico, me pergunto: “qual é o valor da vida?” Em 1º lugar, a vida é dom de Deus. Ele é a fonte, o gerador do alimento que faz a vida seguir adiante. Em 2º lugar, Deus quer vida abundante para todos nós. Esta é a mensagem do Evangelho, anunciada por Jesus de Nazaré.
Diante do episódio da boate Kiss, é inevitável também perguntar o que aprendemos com o sofrimento, visando a preservação da vida. Vejo que depois da Kiss, muitos pais e muitas mães começaram a se preocupar em saber sobre o lugar onde seus filhos e suas filhas frequentam; proprietários de salões de festa, comunidades religiosas, clubes... têm procurado se adequar às regras de prevenção de acidentes; nossa geração aprendeu a procurar segurança também em meio às festividades. Tudo em prol da valorização do que temos de mais precioso: a vida, dádiva Divina.
Contudo, ainda vemos sinais de insensatez. Mesmo depois da Kiss, sinalizadores continuam sendo motivo de destruição e morte, lugares sem segurança continuam sendo frequentados, para muitos a vida vale tão pouco. Ou seja, assim como fazemos memória de fatos alegres, precisamos continuar fazendo memória também das tristezas e aprender com elas, para que não se repitam. É neste sentido que proponho esta reflexão: que cada um de nós se permita perguntar pelo valor da vida, tanto quando estamos dentro das igrejas quanto também quando estamos fora delas. Se entendemos que a vida é dádiva de Deus, então certamente vamos nos esforçar para preservá-la.
Pastor Robson Luís Neu, pastor vice-sinodal do Sínodo Nordeste Gaúcho, pastor da Comunidade de Dois Irmãos
Foto: Passeata em 2013 pede justiça para as vítimas da Boate Kiss. Wilson Dias/ABr












