Nova Frigurgo - Entrevista com Marcio Rebouças e Nádia Athayde
25/01/2011
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Márcio Rebouças
A família de Márcio Rebouças sempre viveu em Nova Friburgo. “Meu tataravô veio para cá com o navio holandês Argo, que em 1824 trouxe imigrantes alemães para o Rio de Janeiro”, disse ele. “E em toda nossa história, nunca soube de algo parecido”.
Márcio é economista e trabalha como autônomo. Luterano e membro da Comunidade de Nova Friburgo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), ele também administra o cemitério e o crematório da comunidade.
“O que presenciamos aqui é indescritível. É impossível acreditar que bairros inteiros da cidade desapareceram. Parentes e amigos mortos. O desespero das pessoas, dizendo – ‘estou completamente só no mundo, o que faço agora?’ – ”, contou Márcio. “E é esse o nosso papel, afirmar que elas não estão sozinhas, que podem contar conosco.”
No seu papel de administrador do cemitério e do crematório, os dias não têm sido fáceis. “Estamos atendendo a Prefeitura e à medida que as escavações prosseguem, o número de vítimas fatais aumenta. No entanto, muitos ainda não têm notícia dos familiares.”
Nádia Maria Figueiredo Athayde, presidente da comunidade luterana local
Essa é a grande dor de Nádia Maria Figueiredo Athayde, presidente da comunidade luterana local. Ela, que perdeu uma grande amiga, sofre ao ver a filha dessa amiga, junto com o marido, com enxada nas mãos, cavando para localizar o corpo da mãe. “Nesse ponto, depois de tantos dias, a Defesa Civil está parando os esforços para resgatar os corpos. Assim como os meus amigos, penso nas muitas pessoas que não vão poder enterrar seus mortos. Sei que isso não é tão importante e que só Deus traz consolo. Mas o sofrimento da perda inesperada e a impossibilidade da despedida são grandes”, disse ela.
A entrevista com Márcio e com Nádia foi feita por telefone, na tarde de sábado, 23, quando o Comitê de Solidariedade Permanente da comunidade luterana reuniu-se pela terceira vez. Criado no último final de semana, os integrantes vão trabalhar em parceria com outras organizações pela reconstrução da vida das pessoas e da cidade.
A comunidade luterana continua incansável no apoio às vítimas. “Com a quantidade de lama nas ruas, todos os espaços livres são exclusivos para a circulação de ambulâncias, carros de bombeiros e do exército. Assim, oferecemos à Prefeitura colocar aqui no pátio uma unidade móvel de atendimento dentário e de procedimentos básicos de controle de saúde”, contou Nádia. “Ficou ótimo. Estamos em um ponto central e temos água e banheiros para o uso dos pacientes.”
Ela, que é dentista, conseguiu mobilizar 10 colegas para o atendimento voluntário. “Nenhum é da nossa igreja e todos estão sensibilizados com o trabalho”, disse. “A procura pelos serviços tem sido muito intensa e estamos dividindo os turnos.”
Assim como todos na cidade, a rotina da dentista, que também é professora universitária, mudou completamente. “Antes do dia 12, eu atendia o posto de saúde pela manhã. Foi ali, bem na frente, que acharam um carro, com quatro ocupantes, totalmente soterrado. Interditaram o local. À tarde, eu trabalhava no consultório, que também está interditado, pois o prédio pode cair. À noite, eu dava aula na universidade e as aulas foram canceladas.”
No entanto, atividade é que não falta. “Todos que podem estão correndo para atender aqui e ali”, afirmou. “As nossas vidas foram poupadas e só temos a agradecer e retribuir de alguma forma”. Nádia também lembrou a história da igreja luterana local. “Temos uma longa história e nos sentimos representando todos os membros da IECLB. Isso aumenta nossa responsabilidade de fazer um trabalho sério pelas pessoas que estão sofrendo”.
Nádia – da mesma forma que tantos outros – se pôs a serviço logo depois da tragédia. Ela abriu sua casa e recebeu 18 pessoas desabrigadas. “Ontem, sexta-feira, a última delas foi embora. Todos localizaram familiares. Minha mãe, que mora comigo, e eu, já estamos sentindo falta do movimento, especialmente do bebezinho que estava junto, que acabou recebendo o amor e o carinho de todos.”