O buraquinho
Alguns meses após perder a visão passei a freqüentar um curso de violão. Meu irmão caçula me acompanhava, e quase sempre fazíamos o percurso a pé: o violão nas costas, a bengala na mão direita, e a esquerda em seu ombro, desviando dos percalços no caminho.
Num dia desses, voltando já à tardinha, uma moça nos atacou:
- Oi amigo, posso te perguntar uma coisa?
Levei um susto com a voz assim, repentina, do nada, mas parei para ouvir melhor. Meu irmão insistia que continuássemos, não queria ficar ali de jeito nenhum. A moça falou:
- Tu não enxerga nada, nada?
Mais uma pessoa surpresa por me ver assim, pensei. Vai ver uma amiga de alguém que não teve coragem de perguntar. Fui gentil na resposta, também podia ser a curiosidade pela bengala e a mão no ombro:
- É, fiquei cego por causa do diabetes, não enxergo nada.
Meu irmão estava quase enfartando. Ele é que começou a me incomodar com essa ânsia de chegar logo em casa. Foi então que a moça perguntou o que realmente queria saber:
- E pra namorar, tu consegue achar o “buraquinho”?
No susto, meio perdido na situação, retruquei:
- Ué, e precisa de luz para fazer isso?
Ela saiu rindo, e então vi que não estava sozinha, outra moça ria junto. Não sei se da coragem de fazer uma pergunta dessas, ou da resposta que dei, ou do vermelho de vergonha no meu rosto. Fato é que fiquei estático, e sem meu irmão ficaria muito mais tempo. Ele então explicou, ainda aflito:
- Cristian, eram duas profissionais do sexo e o final da saia delas tava só um pouco abaixo da cintura, tudo de fora!
Anos depois, durante uma viagem, de ônibus, duas moças conversavam no banco atrás ao meu, sobre uma amiga em comum:
- Pois é, acredita que o marido dela sofreu um acidente de trânsito e ficou “paralítico”?
- “Ai minha nossa, que horror”.
- E é provável que ele não consiga mais ter relações sexuais, já pensou?!
- Ela que não seja burra e fique presa ao cara! Tem que pedir a separação de uma vez, e continuar a vida, numa boa!
- Também acho, assim eles podem ser amigos...
Mais alguns anos, e num debate de aula, na universidade:
- Professora, eu tenho um aluno com deficiência intelectual na escola infantil onde trabalho, fui trocar a roupa dele, molhada da chuva, e levei um susto com tantos pêlos no corpo, parecia um homem...
- E a filha da vizinha de uma amiga minha, com síndrome de down, ganhou um beijo na boca de um colega de aula, e ficou tão excitada que os seios dela aumentaram, e passou a menstruar a cada semana...
- E aquela mulher que apareceu domingo na televisão, é tetraplégica e teve dois filhos gêmeos, com o marido “normal”, um bonitão aliás...
- Lá perto de casa tem um casal de “mudinhos”, parece que brigam quando conversam em sinais... engraçado que os filhos deles são “normais”...
- Eu tenho uma prima distante que é cega, e mesmo sem enxergar ela ajuda até na roça... ela não pergunta nada sobre namoro, daí a mãe dela fica quieta também, acha melhor assim que criar falsas expectativas...
Os relatos acima abordam algumas faces da sexualidade, não só em relação à pessoa com deficiência como se pode perceber. É importante ressaltar, todavia, que sexualidade vai além do ato sexual, embora esta seja, hoje, a sua forma mais envaidecida.
Deposita-se na deficiência a causa de atitudes e impossibilidades relacionadas à sexualidade, e a histórica distância entre “normais” e “deficientes”, felizmente em decréscimo, gera uma série de mitos e preconceitos, infundados, mas danosos.
Um deles, que pessoas com deficiência devem relacionar-se apenas entre si. Isso é, o homem cego com a mulher cega, surdo com surda, e assim por diante. Porque entenderão melhor a dificuldade um do outro, terão lares melhor planejados, não sofrerão o preconceito dos familiares, etc.
Também, que a pessoa com deficiência é como um “anjo”, assexuada. Veio ao mundo apenas para fazer o bem, e, parece, sexo não é do bem.
Ainda, que algumas delas são muito “deficientes”, não têm condições de viver conjugalmente, de trabalhar, sustentar uma família, cuidar e educar um filho, e assim por diante.
Para pensar: quem “limita” é a deficiência, ou o mundo que a cerca?
Há muitas outras questões que poderiam ser aqui levantadas, mas não há espaço para tanto. Basicamente, não se pode esquecer que todos temos limites e potencialidades, e precisamos de interações, acessíveis, que formem e fortaleçam nossa personalidade.
Eu tomei um susto na interação que relatei acima. Mas me parece que a moça, apesar de maliciosa, pelo menos fez a pergunta a quem deveria responder, não ficou imaginando. Assim, conseguiu me desafiar: será que consigo mesmo achar o buraquinho? Aquele buraquinho bem entre um amor verdadeiro e uma piedade esmagadora, entre pessoas que querem estar juntas e uma comunidade que as separa, da possibilidade de crescer e a falta de oportunidades, do perceber que algo está estranho, mas não obter explicações...
Cristian Evandro Sehnem
Técnico-administrativo da UNISC, presidente do Conselho dos Direitos da
Pessoa com Deficiência de Santa Cruz do sul, formando em Pedagogia nos
Anos Iniciais com ênfase em Educação Especial.
Índice do Caderno de Subsídios da Semana Nacional das Pessoas com Deficiência - 2010
